terça-feira, 6 de agosto de 2013

Olhos nos olhos

    Olhos meus lacrimejados nos olhos teus completamente frios... Foi assim que terminou. Disse-me para ser feliz... Morri de ciúmes. Enlouqueci. E obedeci.
    O tempo passou como em qualquer história de amor mal acabada, e a história também passou. Um encontro casual no antigo bar da cidade grande me fez bem e melhor que você. Outros homens me amaram, fizeram-me sentir a mulher que sempre quis ser com você. Olhos meus maquiados e sedutores nos olhos teus totalmente surpresos...

    E agora, se precisar de mim, você sabe que pode vir. Mas o que vai fazer ao me ver tão feliz? O que vai dizer? Olhos meus piedosos nos olhos teus inteiramente mudos...

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Futuros amantes

    Antes de partir, pegou seu compacto aparelho que continha todos os rascunhos de seu amor antigo. Não que precisasse daquilo, mas André sempre foi apegado a coisas do passado; talvez sua profissão de antropólogo tivesse grande contribuição nisso, ou a profissão foi escolhida por essa forte característica? A verdade é que se sentiria melhor perto de algo conhecido em meio a tanto mistério que sua próxima missão reservaria, além de não acreditar totalmente que essa história havia acabado.
    O ano de 3013 chegou com a oportunidade de que ele precisava para encher o bolso e o coração: o novo trabalho consistia na pesquisa de uma cidade do milênio passado, que foi completamente submersa por um terrível tsunami: Rio de Janeiro. Para isso, precisava se deslocar para o litoral e liderar as buscas marítimas por vestígios de uma estranha civilização.
    Passados alguns meses do início de tamanho desafio, já cansado de infindáveis buscas fora e dentro de si, finalmente foi encontrada uma espécie de cofre, porém muito mais frágil e sem toda a tecnologia daqueles dias atuais. Depois de abri-lo sem rodeios e sem dificuldade, descobriu inúmeros pedaços de papel, com escritos típicos de email, mas no papel; havia também algumas fotos que revelavam a felicidade de um amor bem vivido. – “Essas coisas só acontecem no passado” – foi inevitável para André não ter esse pensamento...
    Por incrível que pareça, o material encontrado estava intacto, então movido pela curiosidade e por mero profissionalismo, sem dúvida, André se embarcou a decifrar aquele eco de antigas palavras: “Não se afobe, não, meu amor, que nada é pra já. Amores serão sempre amáveis. Futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber com o amor que um dia deixei pra você...”
    Embalado pela melodia desses fragmentos manuscritos, ele pegou seu celular e enviou uma singela mensagem ao seu passado e futuro amor com os seguintes dizeres: “Eu sei.”.

    E ele realmente sabia...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sem fantasia

    Mais um dia de trabalho se encerrava para o jovem Samuel. Resolveu ir à capela antes de recolher em seus aposentos. Estar em um castelo, ainda que como carteiro real, alimentava seus desejos de ser algo mais, para finalmente conseguir a atenção da sua amada rainha.
    Era errado, ele sabia, mas não conseguia evitar tê-la em seus mais belos pensamentos. E lá estava o jovem novamente no ambiente santo, para mais uma vez discutir com Deus seu amor tão fora da lei. Não sabia o motivo pelo qual se sentia extremamente atraído por uma mulher bem mais velha que ele, mas não existia beleza juvenil que chegava aos pés de tamanha elegância de sua amada. E sem dúvida, ela era bonita, de uma forma que Samuel não entendia, mas a ponto de deixá-lo completamente paralisado. Extremamente confuso e sem mais argumentos para a discussão diária, foi se deitar.
    No dia seguinte, em meio a uma tempestade só não mais tenebrosa que seus pensamentos, foi realizar mais uma entrega real; e, apesar de todas as dificuldades que o dia apresentava, conseguiu chegar a tempo de ver sua rainha na biblioteca admirando a vista privilegiada do pôr do sol. Dessa vez, seus olhos não se perderam nas belas curvas por trás das roupas tão luxuosas, eles foram direto à delicada face, que o fitava incessantemente. Logo depois da janela fechada que interrompeu a quase valsa dos olhares, e com aquela imagem real, encostou-se a uma árvore do bosque e acabou adormecendo.


    O vitral todo colorido e iluminado da biblioteca possuía uma vista privilegiada do bosque e do rio ao fundo, era com certeza uma das partes mais bonitas do castelo e também, a que Inês mais frequentava. Mais precisamente todo fim de tarde, com a desculpa de que, dali o pôr do sol era mais bonito. E realmente era, mas o pôr do sol não era tão interessante quanto aquele jovem camponês que trazia religiosamente neste mesmo horário as correspondências do castelo.
    Recolhida naquele aposento observando a chegada do jovem rapaz, humilde por natureza, mas de uma beleza nobre, sentia-se entorpecida por um desejo inexplicável, o queria para si. Era rainha, tinha tudo o que queria, mas receava tê-lo, mandava em tudo e em todos, menos em seu coração que ardia ao vê-lo chegar. Desta vez, demorou um pouco mais com seus olhos sobre o rapaz, e seus olhares se encontraram.
    Um pouco atordoada e sem saber o que sentir, fechou o vidro rapidamente, assentou-se numa cadeira e involuntariamente observou tudo ao seu redor. Aqueles quadros tradicionais de família, os símbolos, brasões da realeza, tudo muito peculiar de uma vida que a escolhera, sem ao menos perguntar se ela a aceitava, sufocava suas vontades, ocultava ainda mais seus desejos. Toda aquela exaustão de pensamentos a fez adormecer, ali mesmo.


    Como parte da sua rotina, Samuel está na capela, mas dessa vez em silêncio, ajoelhado, rendido a suas discussões divinas de que nada adiantavam. Percebeu que alguém se aproximava, mas não se mexeu, imaginando ser alguma camponesa devota; a proximidade de tal presença o incomodou, e quando se virou para confirmar sua dúvida, encontrou-se com aqueles olhos reais, e mais uma vez, tal beleza o deixou paralisado.
    Inês sorrindo, disse:
    - Aqui diante deste pedestal santificado, ocupando teu lugar de mensageiro, trago-te um recado do meu coração. Que Deus nos perdoe se isto for errado, ou que nos abençoe se for certo, mas dentro de meus sonhos, amar nunca foi pecado, anseio por um beijo seu. Vou te envolver nos cabelos, vem perde-te em meus braços, pelo amor de Deus. Não temas minha vida nobiliárquica, pois mais nobre do que isto, é meu sentimento por ti.
    E Samuel, sem hesitar, confessou:
    - Ah, como eu quero lhe dizer que custou tanto penar esse nosso encontro entre tantos desencontros. Eu quero lhe falar que de tanto lhe esperar eu almejei inúmeras tempestades superadas, vitórias nas batalhas invencíveis e até conseguir deixar Deus sem palavras, só para ser digno de seu amor, minha rainha.
    - Não, meu jovem. É assim que te quero: fraco, tolo, todo, meu.

    Uma despindo-se de sua realidade, e outro de suas fantasias, deram-se as mãos e foram ao encontro do sonho que, mesmo separados, sempre os uniram.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Gota d'água

    Seria o finalzinho do começo de uma semana qualquer; mas para Paulo, o sol adormecendo marcava não só uma segunda feira que acabava: era o sangue estancado... a veia saltada...  a voz que restava... o desfecho da festa. E ele estava sendo a gota num mar de gente que causava a tormenta necessária para esse barco movimentar.
    O rapaz fazia parte de um grupo de estudantes de história, cansados de estudar inúmeras revoluções calados; ver a pátria amada adormecida há 21 anos, desde os caras-pintadas. O coração já não aguentava mais: “Deixa em paz...”
    A alegria calada agora gritava, meu corpo: “Por favor!”

    E tamanha desatenção... Foi a gota d’água!

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Sinal fechado

Por Fernando Telles


    Acordou e piscou os olhos algumas vezes para que calmamente se acostumasse com a claridade. Espreguiçou-se envolvendo os pés no edredom e pensando que tinha de levantar. Devia levantar. Era necessário. Foi ao banheiro e escovou os dentes. Escovou os cabelos. Por fim escovou a tristeza do rosto e sorriu - não muito convincente. Com certa tranquilidade, retirou temerosa a aliança do dedo esquerdo. Completava trinta anos. E era livre de novo. Deixou uma lágrima brincar caridosa pelo rosto nesse momento, como quem dança um parabéns saído dos olhos, dirigido aos lábios e que finda infantil no chão, ao lado dos pés. Pegou a bolsa, as chaves, os cacos de si mesma e ligou o carro. Era preciso.
   Ele acordou com o cachorro lambendo seu rosto. Sorriu, bobo, da simplicidade do mundo naquela manhã de verão. O Sol convidava para um passeio que o cão insistiria a manhã toda em ter. Levantou-se. Era necessário. Pegou uma caneca de café e tropeçou na bicicleta jogada na sala enquanto tentava chegar até uma pilha de livros na qual queria se sentar. Vestiu um moletom. Colocou a coleira no cão e foi rumo à praia. Era preciso.
O carro dela parou devagar naquele sinal fechado. Deslizando pelo asfalto quente, entre os banhistas, entre as muitas vidas que ela não conhecia, entre o tempo, entre quem ela fora e que não era mais. Sentiu-se entretida com a paisagem, como se não pertencesse a ela e só olhasse de fora, com a jovialidade perdida. Quedou-se introspectiva.
      Ele olhou o sinal fechar. O cachorro, como se intuitivo de que aquela era sua deixa, correu. Rindo, ele foi puxado pela coleira. Até que seu cão se jogou contra um dos carros que pacienciosamente esperavam para seguir seu curso. Para ir buscar o futuro.
   Ela mirou um cão se jogar contra seu carro e, em um grito de esquecimento, pegou-se rindo por ser tão assustada.
Como em fotografias antigas do cinema mudo, paralíticas, fixadas, tortas, lentas e, ainda assim, certas, ele a observou rindo. Sentiu a manhã invadir com força suas vísceras sem ser convidada. Fazia tanto tempo.
     Ela observou o dono do cachorro rindo e correndo atrás do companheiro. Lembrou-se primeiro do cheiro, aquela mistura de protetor solar, almíscar e madeira. Quente. O corpo dele nunca era frio. Havia sido um amor sinestésico nos sentimentos. Mas fazia tanto tempo.
Reconheceram-se e se cumprimentaram.
- Oi.
- Tudo bem?
- Tudo certo, eu vou indo e você?
- Eu vou indo, correndo, você sabe.
- Na loja ainda?
- Na loja e você?
- Com os quadros.
- Eram lindos.
- Eram seus. Fiz para você.
Silêncio. Ela olhou para o sinal.
- Vai abrir.
- Vai abrir.
- Me liga?
- Você quer? Te ligo.
- Liga?
- Ligo.
- Adeus.
    Vermelho. Verde. Ela acelera o carro, tão rápido quanto o seu coração havia se acelerado. Vai embora, esquece que naquele entroncamento de vias o passado encontra o futuro. Ele era uma via já percorrida. Agora o marido também era ex. Namorados antigos. Só guardou o cheiro. Aquele cheiro seria sempre dele.
     Ele foi ficando para trás e ela foi ficando pequena no seu campo de visão. Pegou o cão e foi até a praia. Soltou a coleira, como há muito ela havia se soltado da coleira que ele pusera nela, segundo ela dizia.
    O sol brilhou mais fraco. O vento bateu mais forte. E o sinal piscava: verde, vermelho, verde, vermelho... Os carros seguiam, as pessoas seguiam; a vida seguia seu fluxo intransponível.

domingo, 12 de maio de 2013

Você, você


    O bebê repousava sobre o berço enquanto a mãe se arrumava para mais um encontro. Não que ela fosse o tipo de mulher descuidada, especialmente em relação ao seu filho, mas já fazia algum tempo desde que o homem que amava (também pai da criança) a deixara. Precisava viver um novo romance.

    O batom vermelho, os cabelos negros levemente presos, a maquiagem reforçando seus olhos azuis, anéis, pulseiras... O pequeno menino a observava com olhos arregalados e inocentes, escondendo toda a dúvida por trás deles: “Pra onde ela vai?”; “Que horas volta?”; “Por que ela se arruma assim?” “Pra quem ela se arruma assim?” ...

    Nas noites dos finais de semana era sempre assim. E o bebê não dormia enquanto não sentia o cheiro daquele perfume que agora marcava a presença da sua tão amada mãe, seguida de um beijo delicado na sua testa e do som doce de sua voz, cantando aquela música só dele, e isso ele sabia que seria sempre e somente dele.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Valsinha




     A dança terminou e o dia começou em paz...
   A menina continuou se fazendo bonita, mas agora como todo dia se fazia ousar. E ele chegava sempre tão diferente do que antes costumava chegar, e todo dia a olhava sempre quente como gostava de olhar. E eram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos que a vizinhança não ficava em paz.
   Assim foi com os dois: começou com a dança, o mundo compreendeu e a vida amanheceu em paz.

      
      Link da música

quinta-feira, 28 de março de 2013

Tanta saudade

Por Luísa Gontijo
    
      
     "O tempo do piscar dos olhos de quando estou com voce já é o suficiente pra me fazer sentir saudades. Incontáveis vestígios de saudade se juntavam enquanto eu piscava. O que me conforta, é que mesmo longe sinto que está aqui. Na verdade...está aqui dentro..."
     ... dos meus pensamentos, dentro de tudo que havia nela, dos sonhos, não! A verdade é que ele era seu sonho, um sonho que ainda não sonhara, como se a espera lapidasse, aperfeiçoasse o que se espera... nem sabia mais como dizer, mas a saudade aumentava a cada instante de uma forma inimaginável, e com isso o amor... Difícil de se entender que uma coisa infinita aumenta, mas o amor é assim mesmo nõo é pra se entender, se fosse compreensível que graça teria? Seria mais uma das tantas coisas racionais, é por isso que o amor se deixa surpreender, porque não se pode entender, é como o universo, parece infinito, mas está em constante crescimento, assim também é o amor.
     Incontáveis piscadas de saudade agora se acumulavam nos olhos da menina, sendo assim ela tentou arrumar um jeito de não mais piscar, mas seus olhos ardiam, ela ficou até doente, mas para ela isso ainda era a melhor solução. Mas ele arruma uma solução melhor: "Não se preocupe, fecha os olhos que permanecerei retido nos seus pensamentos. Basta pensar."
     A menina então tenta, como sendo a melhor solução e diz: " Fecharei...e os pensamentos estarão em você! E em tudo que nos espera. Basta esperar." -  Ele então a surpreende: "Basta esperar nas mãos Dele. Eu creio que Ele preparou um mundo só pra nós dois." - Enquanto isso ela vive a sonhar, a incessante hora em que a espera há de acabar... 
    Creio que chegará. E então o amor daquele que tem o maior amor de todos, continuará a suprir todas as necessidades deles. E que amem um ao outro para sempre... Contracondicionamente.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Ciranda da bailarina

Por Bia Carrozza e João Eugênio

     
     Teatro lotado! Todos estavam ali - todos mesmo (e suas inconveniências, seus medos, suas imperfeições... é claro!). Era como se a bailarina olhasse para a plateia e visse cada um deles arrumado especialmente para assistir seu grande espetáculo- aquele, é... aquele mesmo feito para revelar exatamente quem ela era.
     Tamanha perfeição a posicionava num patamar acima de qualquer distinto cidadão que estalava seus atentos olhos esperando o momento certo para aplaudir. Pense em algum possível "defeito"... acredite, ela não tinha! E todos estavam presentes para ouvir isso enquanto acompanhavam os belos movimentos da exímia bailarina.
     Atordoada com tantas imperfeições ali presente, a artista não conseguiu prosseguir. Estaticamente olhava para a plateia e sabia de cada detalhe que faziam todos ali um lixo diante dela, mesmo nada estando visível, mas era como se tivesse uma visão raio x para defeitos. Foi então que começou a gritar: 
     - PEREBA, LOMBRIGA, AMEBA, COCEIRA, FRIEIRA, PIOLHO, REMELA... POR QUE ESTÃO ME OLHANDO, HEIN? MEDO DE SUBIR? MEDO DE CAIR? AH... JÁ SEI! MEDO DE VIVER!!!
     A música clássica aumentava a cada grito, para desespero de todos - inclusive da menina, que corria, e pulava, e girava, com movimentos cordialmente calculados e atordoados. Ela estava confusa, não sabia onde se encontrava, não sabia para onde olhava... Foi então que deitou sua cabeça no chão do palco e a cobriu com seus braços, querendo proteger um pouco mais seus pensamentos de tanto desnorteio. 
     Bastaram apenas 17 segundos para que a menina se aprumasse. Diante dos seus olhos, o esplendoroso espelho magenta perolado acoplado à cômoda (exatamente onde estava a caixinha de música com a impecável bailarina, presente de 16 anos de seu padrinho) e ao seu lado esquerdo, a cama continuava intacta com um vistoso lençol fucsia estendido até o macio e confortável travesseiro de espuma de látex (do mesmo jeito que sua mãe deixara no início da manhã enquanto a adolescente, no penúltimo ano do colégio e se preparando para o tão temido vestibular, elaborava a polêmica redação em que narrava o que, talvez, fosse seu maior sonho: a perfeição).
     Sonho? Quem não tem? Boa noite!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Lola


     Nossa história era assim: páginas de um livro cuidadosamente escrito com a caligrafia mais bonita e mais complexa. Porém, tanto esmero sempre foi desnecessário. Você chegava e me arrancava as páginas.
     Não era como um romance que costumava ler nas diversas histórias literárias de meu caminho acadêmico; não era como um filme de Fellini, um soneto de Vinícius ou uma sinfonia de Beethoven. Era você e éramos nós.
     E você chegava com suas páginas, seus livros, suas sinfonias e me fazia não saber nada do que sabia, por ser você, por sermos nós.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Folhetim (Versão 2)


     Lúcia nunca fora o tipo de mulher que se dava bem com relacionamentos duradouros. Talvez seu mais profundo desejo seria que algum desses poucos que teve tivesse dado certo, mas não perdia tempo pensando sobre isso, estava ali para dizer sim às oportunidades que a vida lhe entregava, ainda que durassem uma noite.
    A moça nem era assim tão bonita e nem tinha muitas curvas, onde se pudesse percorrer à vontade. Ela entendia mesmo era de charme. Os olhos negros revelavam a sedução necessária a cada conquista, e o sorriso, esse ocultava suas verdades. Lúcia gostava de ouvir: ouvia tantos desabafos à meia luz de um bar no fim da noite, e depois ouvia os gemidos de um sexo bem feito. Sabia ser amada, sabia exaltar, engrandecer, usufruir... E no final, virava a página.
    O que não sabia mesmo era quem era ela: será que uma prostituta? Não, ela nunca cobrou para isso... Só recebia alguns presentes em gratidão pela noite anterior. É, talvez Lúcia fosse personagem de um livro que todas as mulheres quisessem escrever... E os homens de ler, é claro!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Noite dos mascarados


        Era carnaval. O baile de máscaras era comum na pequena cidade. Apesar de toda a beleza da festa brasileira, naquele lugar, toda a magia do teatro italiano pairava nesses dias, principalmente na terça feira: quando as moças se escondiam atrás da formosa Colombina; e os rapazes podiam escolher entre o romântico Pierrot ou o malandro Alerquim.
      Naquela noite valia tudo. As máscaras revelavam a verdade que a realidade rotineiramente escondia. As pessoas eram o que faziam questão de esconder. Acontecia e acabava ali - porque, apesar de cada um saber da identidade "real" do outro, era terça feira  à noite.
     Era carnaval. E as máscaras caem no carnaval. Hoje eu sou da maneira que você me quer, mas amanhã? Amanhã tudo volta ao normal, seja você quem for, seja o que Deus quiser.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sobre todas as coisas

Por João Eugênio


Seria não mais que um dia qualquer, não fosse o atrevimento da jovem Cant (sempre coroada de sutilezas que encobriam sua face borrada pela densa maquiagem), que ousou despertar o menino - seu irmão mais novo, Sin, descansava, havia alguns dias e noites, ora acalentado pelas estrelas que percorriam o firmamento em carrossel, ora protegido pela sombra daquela esplendorosa macieira.
Logo ao abrir os olhos, Sin aprumou-se com um contido sorriso e estendeu os braços à irmã (pareciam mãe e filho, tamanha afinidade entre ambos), que não hesitou em despertá-lo ao considerar a saudade que lhe corroia as entranhas.
E percorreram lado a lado um longo caminho pelo campo. Bichos e flores coloriam aquele vale onde jorrava leite e mel, até que um grito ecoou nos ouvidos dos irmãos: CAAAANT!!! (Não era um grito qualquer, soava como uma espécie de moralismo camuflado pelos mais discretos impulsos egocêntricos). E o grito se multiplicava intensamente, como células cancerígenas alastradas por todo o corpo.  

Agora todos estavam gritando: CAAAAAAAAAANT!!!!!!! A jovem moça se rendeu aos gritos, reclinou sua fronte e, voltando-se no sentido oposto a Sin, sussurrou:
- Estou pecando... preciso ir!
- Espere! Por que você me acordou então? Enganarás a ti mesma (e a todos)? Não vê que isso é pecado? Pra que tanta estupidez? E se Deus ficar zangado vendo alguém abandonado pelo amor de Deus? Seja você mesma, Cant! – indagou Sin.
Já distante, a moça (que nem se atreveu a voltar os olhos ao irmão), proferiu em um tom sarcástico que se propagava pelo ar feito singela melodia:
- É exatamente isso que estou fazendo! Ainda não percebeu, querido irmão? É tudo tão simples! Eu sempre fui, sou e sempre serei Cant!
E como se não bastasse, a jovem ousou completar com uma de suas rezas:
- Love you unconditionally!
Nestas circunstâncias, não restou alternativa a Sin senão despertar para o mundo e viver intensamente cada momento de sua vida (agora com a clara convicção de quem era sua tão amada irmã). Cada um por si, cada si por nós e Deus por todos!
- Hipócrita! Não vê que isso é pecado?
- Sim. Isso o que?
Por mais distantes que estejam, Sin e Cant caminharão lado a lado enquanto houver resquícios de tudo o que foi criado.




Link da música

domingo, 27 de janeiro de 2013

Um tempo que passou




     Ainda criança comecei a busca por meu tempo perdido. Eu tinha que encontrá-lo, não poderia perder tempo, afinal como dizem as más línguas: "O tempo é precioso. Tempo é dinheiro". Quem sabe não poderia achá-lo e vendê-lo? Não! O tempo era meu. Precisava dele para brincar, eu era uma criança.
     Andava por caminhos tortuosos, enfrentava tempestades, mas não importava. Eu precisava achar meu tempo. Como ele podia ter andado sem mim? Será que alguém o roubou? Ahhh, se eu coloco as mãos no ladrão…!
     "Tempoo? Teempo? Cadê você, tempo?" - ele não voltava, não me escutava. Resolvi sentar à beira de um lago o qual me trazia paz, e me aproximei a fim de matar a sede física, e enganar a sede da procura. "Quem era aquele no lago?" - Um jovem bonito, um pouco maltratado pelo cansaço, mas ainda assim bonito. "Quando crescer quero ser como ele! Que engraçado! Ele repete exatamente meus gestos! … Ei, para! Será…? Será que o jovem sou eu?" - Não conseguia entender, eu era uma criança…! Não importa! Precisava achar meu tempo.
     Eu via pessoas indo, buscando como eu. Via outras voltando: talvez desistentes, talvez eficazes na busca. Continuei seguindo meu caminho. Algumas me questionavam sobre o tempo, e eu sempre dizia: "O meu está tão perdido quanto o seu."
    Comecei a me questionar qual era o motivo de tamanha busca, não precisava mais brincar; não precisava de romances, eles me faziam perder ainda mais o tempo. E eu precisava dele, precisava dele para pensar. Quantas coisas queria pensar, mas não podia sem o tempo. Já era um homem, mas não tinha nada, ele me tirava tudo.
    Certo dia, já desistindo da minha busca, cansado e com vontade de viver tudo que deixei para trás nessa estrada, avistei uma moça relativamente jovem, com um aspecto sereno. Aproximei-me e a questionei sobre seu nome: Vita. "Que nome engraçado!" - pensei comigo. Contei-lhe sobre meu objetivo e ela riu:
    "Como você procura algo que está dentro de voce?"
     "Como assim?"
    "As pessoas têm a mania de achar que o tempo anda só, que ele se perde delas, mas ele está ali, esperando para ser utilizado."
    "Mas… E agora? Eu faço o quê?"
    "Bem, agora nada. Seu tempo está comigo. E você deve me acompanhar." - Como não tinha escolha, fechei meus olhos e deixei que a Vita me levasse, eu e meu tempo.


    Música

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Geni e o Zepelim

Por João Eugênio


Excrementos ideológicos (como se o intestino se encontrasse na caixa craniana daquela multidão!).
São todos assim? Claro que não! Quem não segue suas regras e está no meio deles, faz a diferença autêntica, proclamando a mesma crença e agindo na verdade, se tornando uma exceção.
É exatamente isso que podiam atirar (além das pedras). E assim o faziam, ininterruptamente!
Escarravam a própria ignorância nos olhos daqueles malditos “filhos das trevas”, afinal, estes formosos vermes, tão coitados, tão singelos, foram feitos pra apanhar (e podiam disfarçar o seu medo de bater, procurando teorias pra poderem se esconder).
Mas se vissem nessa gente, uma ocasião pertinente pra poderem se safar, cuidariam das palavras, agiriam com cuidado e aqueles pobres “coitados” chegariam num estado de não mais raciocinar.
Mas, AI DESSES POBRES “COITADOS”, se aos ouvidos daqueles outros indivíduos chegasse, que alguns dos “entrevados” se atreveram a pensar, só um pouquinho, só às vezes... eles não perdoariam, a não ser que esses pensantes, incisivamente, negassem sua vida, sua lida, sua fé (e jamais fariam isso!).
Então, tudo volta ao normal! As fezes são atiradas, feito ideias regurgitadas por mentes petrificadas que fazem de suas bocas uma cavidade anal, confundem as mentes loucas, acusam sem moderação arremessando para o alto todas aquelas pedras que lhe dariam sustentação.
Quem são eles?
Eu ou você?

Atire a primeira pedra que eu lhe digo!


Música

sábado, 19 de janeiro de 2013

Folhetim



    Por Giovanna Bonato


    Ei, bom amigo, sente-se aqui. É ótimo te encontrar, preciso mesmo gastar minha saliva com um bom entendedor. Conheces Adelaide? Aquela formosa moça com cabelos louros, coxas grossas, que sempre desfila elegantes vestidos de cetim? Pois então, ela anda atormentando meus miolos.
    A conheço há tempos, desde a época do colégio, quando ainda éramos meninos. Iniciamos contato logo de cara, sua boca (ao contrário das outras moças) fala mais bonito que suas pernas... Da gosto perder horas ouvindo suas risadas!
    Acredita que acabei caindo de amores? Eu lhe fazia feliz, amada e ela me concedia todas as minhas vontades e desejos, até que conheci a boemia. Ôh vida boa! Gastei noites e madrugadas com bebedeiras, jogos, falsos amigos e, consequentemente, mulheres. Confesso que gostei, não posso negar. Mas a mamata acabou quando vi Adelaide dando bandas por aí acompanhada de um tal moço de negócios. Oras, o que ela pensava que era?
    Fui puxar a ficha do tal homem e me perdi meio a tantos bens e renda. Me recolhi em minha embriagues e percebi o erro que havia cometido. Perdi minha amada... Moça a qual dedicava todo seu tempo livre para fazer meus caprichos e encher-me de amor, atenção e carinho.
    Dizem as más línguas dessa cidade que Adelaide não quis saber do tal João, que não se envolve com mais ninguém desde a minha partida e só pensa em trabalho. Mas olhe para mim! Tenho meu trabalho, amigos e luxos, mas estou agarrado ao copo de cerveja, sentado nesse botequim, por falta da mão de Adelaide para agarrar.
    Não quero dar fim a esse sentimento, quero mesmo é um final feliz para essa novela. Mas será que Adelaide ainda precisa de mim? Diga, meu amigo, devo ou não descartar essa página de meu folhetim?  

    Música
    

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Mil perdões


    A carta chegou como a fala de um filme mudo - você sente falta, mas é completamente desnecessária, e a princípio tais palavras foram mesmo:

    " Querida Alice,

    Eu poderia dizer que nossa história foi bem conturbada, pensei em continuar desaparecido de sua vida, mas não poderia errar dessa forma, portanto essa é uma carta de perdão. Para eu continuar, preciso te perdoar por inúmeras coisas.
    Você sabe que sempre fui uma pessoa sincera, Alice, mas aprendi a mentir por você. Nunca fui homem de uma mulher só, gostava de sair, gostava de me perder pela noite, e em uma delas, achei você. Eu me apaixonei e decidi abandonar minha vida de "conquistador nato" (como você sempre falou). Mas você nunca acreditou em mim... Fazia mil perguntas, perguntas que quem confia não faz. E depois me pedia perdão...
    Você dizia me amar, e dizia muito... Chorava por eu não falar tanto, e depois chorava mais por eu rir da sua bobeira de chorar. E me pedia perdão...
    Comecei a sair mais, a demorar mais, a viver mais e me perder de ti, e você gritava, me ligava, desconfiava. E me pedia perdão...
    Até que comecei a mentir, mentir, te trair, me mentir... E você me pedia perdão...
 Agora resolvi te perdoar por tudo, e, principalmente, te perdoo por te trair.
  De qualquer forma, obrigada por todos os momentos.

                                    Do um dia seu,
                                               Luiz Roberto"
                                                                                                                                             
    Não entendo como ele conseguia ser tão pretensioso, mas de alguma forma, estava aliviada.

         Música
     

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Ano novo


Por Pedro Arvellos e Bia Carrozza


     O último minuto. O último minuto de conquistas, grandes perdas. O presente se tornando passado, o futuro se tornando presente. Eram quatro no começo do final do ano:
     As luzes da Torre Eiffel nunca estiveram tão bonitas. O frio cobria o seu corpo, preferia ter ficado em casa, mas a companhia da solidão não seria uma boa alternativa. Era melhor estar cercado de pessoas, sorrisos… talvez um deles o contagiasse. A mudança para Paris não poderia ter vindo em momento melhor: acabara de perder o amor da sua vida. Não teve culpa, nenhum dos dois teve, o tempo os afastou; ele, seu maior inimigo virou seu aliado agora. Sentia falta de sua família, seus amigos, sentia falta dela… mas sabia que mesmo estando perto sentiria saudade. Era meia noite. Fechou os olhos e pensou em seu sorriso pela última vez; quando abriu, os fogos de artifício colorindo ainda mais a Torre indicavam um recomeço naquela cidade estrangeira. Era ano novo…
      Saltando sobre as pedras pontudas de São Paulo, com um dia sobre suas costas, José derrama cansaço pelo chão. José filho de Roberto, pai pobre e abandonado pelos sonhos. Quem dera José com seu corpo negro se espalhasse pela noite e voasse sobre a fumaça que esconde as estrelas para os braços de seu pai, e com ele passasse os últimos segundos de um ano velho. As luzes pelo céu lhe mostram que ele está atrasado, porém também refletem o brilho dos olhos de seu pai, que mesmo longe, lhe espera sentado na sua velha poltrona. Encantado por tantas cores, o menino para pelo caminho e vê nelas a esperança que precisa compartilhar com seu velho. Corre como nunca correu, chega em casa e puxa seu pai pelo braço até que ele consiga ver o céu. Nos olhos de ambos, os sonhos escorrem como lágrimas. Era ano novo...
     Há anos sonhava em começar o ano em Copacabana. Finalmente, estava lá. Não conseguia pensar em mais nada, apenas no show de cores que estava prestes a presenciar. Mas num segundo, imaginou como seria estar mais perto do céu. Apesar da violência que vestia as favelas, sentiu vontade de despí-las e ver realmente as  curvas que as faziam. Olhou para o céu, e as cores lhe deram um sonho realizado e a esperança de tantos outros que estavam por vir, um deles já veio. Era ano novo…
     “Sinto-me a alguns metros do céu, quase posso tocá-lo. Porém está tão longe, quem dera deslizar sobre essas curvas que nos separam e descobrir seu país. “ - O tempo lhe obriga a sorrir, pois mais um ano se eterniza. E tudo que separa os dois é um céu iluminado que derrama sobre a cidade pedaços de sonhos. Um deles o atinge como flecha. Era o dela, tinha de ser. Sabia que estava lá em baixo em algum lugar, não devia estar pensando exatamente nele, nem o conhecia. Mas as cores agora o enchiam apenas de possibilidade. Algo iria acontecer… Era ano novo…
     Eram quatro, e o céu, e a luz, e as cores e o ano novo!


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